segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Semana dos Seminários destaca vocação sacerdotal
que nasce da misericórdia

“Comunidades e famílias devem ser espaços onde os jovens aprendem a «acolher, compreender e perdoar», realça responsável pelo setor”

A Semana dos Seminários 2016, que vai decorrer entre 6 e 13 de novembro, tem como base o Jubileu da Misericórdia e destaca a importância desta componente no desenvolvimento das vocações.

“A vocação sacerdotal não nasce somente de um chamamento, de um desejo ou de um impulso interior; ela é fruto do encontro do Deus misericordioso com o homem perdido e que é encontrado, com o homem morto e que revive”, realça D. Virgílio Antunes, presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, na mensagem para a iniciativa deste ano.

Intitulada “Movidos pela Misericórdia de Deus”, esta semana quer sublinhar os seminários como lugares onde os jovens aprendem “a misericórdia” do Pai para depois se poderem entregar “ao serviço dos outros”. Pretende recordar também a importância do papel da educação, quer na família quer nas várias etapas dentro da Igreja Católica, para o surgimento de mais crianças e jovens dispostos a consagrarem a sua vida a Cristo.

“Uma família que não vive relações de comunhão a partir da fé e onde cada um não está disposto a acolher, compreender e perdoar no seguimento de Jesus, não fomenta os gérmenes da vocação”, escreve D. Virgílio Antunes. E “uma educação cristã que não favorece experiências fortes de encontro com Deus nos momentos de espiritualidade, de oração, de reconciliação, de perdão, de partilha das misérias humanas, não pode ter consequências vocacionais”, acrescenta o bispo de Coimbra.

Estar aberto a uma missão na Igreja Católica, ao sacerdócio, ao celibato, a fazer das comunidades a própria família, implica uma conversão radical que só é possível em quem faz na sua vida a experiência da “misericórdia de Deus”, aponta o presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios. “Nenhuma lei deste mundo, nenhum conselho, nenhum raciocínio da razão têm a mesma capacidade para mover a mente, a vontade e o coração”, conclui.

guião da Semana dos Seminários, já disponível, apresenta algumas propostas para a vivência deste tempo, que é sobretudo de ação de graças e de oração pelo surgimento de novas vocações. Entre elas a oração para a semana, uma vigília de oração e um terço vocacional.


Lisboa, 27 out 2016 (Ecclesia

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Mensagem à Diocese de Beja

Caríssimos irmãos e irmãs, filhos e filhas no Senhor

Como foi noticiado, Sua Santidade o Papa Francisco aceitou o pedido de resignação do Senhor D. António Vitalino, pelo que sou eu agora, por vontade de Deus, o vosso pastor. Quero agradecer publicamente ao Santo Padre a confiança que deposita na minha pessoa, ao colocar-me à vossa frente como bispo diocesano.
Agradeço também ao Senhor D. António Vitalino que durante os dois últimos anos me foi introduzindo na realidade desta diocese e me ensinou a exercer o ministério episcopal. Desejo, do fundo do coração, que o Senhor o recompense por todo o bem que me fez neste tempo, e, sobretudo, pela sua dedicação à diocese de Beja ao longo de todo o seu pontificado.
Saúdo, antes de mais, os sacerdotes e os diáconos, meus colaboradores mais próximos, e os religiosos e religiosas que vivem e trabalham na diocese, enriquecendo-a com a diversidade dos seus carismas. Dirijo também a minha saudação a todos e a cada um dos católicos praticantes e não praticantes, às famílias, às crianças, aos jovens, aos idosos, aos doentes e, sobretudo, às pessoas que vivem sós e isoladas: desejo ser para todos vós a presença amiga do nosso Bom Pastor, Jesus Cristo, que nos ama com o mesmo amor divino que recebe do Pai.
Saúdo ainda as Autoridades Civis e Militares, as Forças de Segurança e as Autoridades Académicas dos concelhos do Distrito de Beja e dos concelhos de Santiago do Cacém, Sines e Grândola, do Distrito de Setúbal, que integram a diocese de Beja. Porque servimos as mesmas populações, conto com a ajuda de todos e a todos ofereço também a minha colaboração, dentro daquilo que é normal esperar de um bispo da Igreja Católica.
Àqueles que me perguntam quais são os meus projetos, apenas posso responder que venho para edificar convosco a comunhão eclesial, a Igreja, por meio da evangelização, da liturgia e da ação pastoral. Nesta hora de grandes mudanças, todos sentimos a urgência de uma evangelização básica que, em vez de procurar remendar o tecido eclesial quase desfeito que herdámos dos tempos da cristandade, proporcione aquela renovação profunda preconizada e preparada pelo Vaticano II, pela qual os últimos Papas têm pugnado, e que tanto nos tem sido recomendada por eles.
A única riqueza que vos trago e vos quero dar abundantemente é o Evangelho de Jesus Cristo Filho de Deus e da Virgem Maria, desprezado e morto na Cruz, ressuscitado e glorificado à direita do Pai para interceder por nós e nos dar o Espírito Santo. Quando há dois anos cheguei a Beja desejei, e ainda agora continuo a desejar, não ter no meio de vós outra sabedoria a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. (1Cor2,2) Eu acredito no Evangelho e sei que o futuro da humanidade está esboçado no Sermão da Montanha que o resume. Como São Paulo, também eu quero afirmar perante vós neste momento, com a firmeza de que sou capaz, que não me envergonho do Evangelho (Rm 1, 16). Tenho experiência de que nele se manifesta o poder de Deus que conduz da fé para a fé(Rm 1, 17), de uma fé infantil, muito ao nível da religiosidade natural, para aquela fé adulta que frutifica pela caridade (Gal 5, 6), fé que se cultiva e testemunha na comunhão da Igreja.
Quero ser para todos um sinal vivo da esperança cristã, sobretudo para tantos de vós que atravessais momentos difíceis porque estais desempregados, doentes ou tendes desfeita a vossa vida familiar e sofreis a solidão e carências de ordem material e espiritual, e peço a Deus a graça de ser manifestador da Sua misericórdia para quantos habitam e trabalham no Baixo Alentejo e no Alentejo Litoral.
Vamos dar continuidade ao trabalho do Senhor D. António Vitalino, procurando traduzir na vida da diocese as proposições do Sínodo Diocesano recentemente celebrado. Vamos também preparar-nos para comemorar festivamente em 2020, com a ajuda do Senhor, os 250 anos da restauração da diocese. Quanto ao mais, vamos trabalhar humildemente na consolidação dos fundamentos do edifício eclesial que o Senhor quer levantar connosco para podermos enfrentar as grandes tempestades que se desenham no horizonte deste século XXI.
Acredito que não nos faltará a ajuda do Senhor, porque ao longo da minha vida sempre experimentei e confirmei que Ele é fiel e acompanha, por meio do seu Espírito, aqueles que envia.
 Confio o meu ministério à frente desta diocese a Nossa Senhora, de cujas aparições em Fátima vamos celebrar o centenário, a São José, padroeiro da nossa diocese, a São João XXIII e a São João Paulo II, que tomei como protetores no dia da minha ordenação episcopal, e ao mártir pacense São Sisenando. Conto com a vossa colaboração e oração para poder apascentar-vos com aquele amor e sabedoria que tornarão suave o jugo que hoje é colocado sobre os meus ombros. Acreditai que é grande o lugar que tendes no meu coração de pastor.
O Senhor vos abençoe!
Beja, 3 de Novembro de 2016                                                                    
+ João Marcos

Bispo da Diocese de Beja

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Firmes na esperança

Um buraco negro aberto para o abismo, um sorvedouro insaciável onde tudo desaparece é, para o comum das pessoas, a imagem primeira da morte. A nossa vida decorre à beira deste abismo que nos acompanha como a sombra, abismo do qual nos defendemos temerosos ou que pode também atrair-nos como solução radical para todos os problemas. Solução aparente, solução falsa, porque é apenas demissão e autodestruição. De qualquer modo, não é fácil vivermos lucidamente a fragilidade da nossa condição de seres condenados a morrer.


Pelo pavor de enfrentar a morte, quantas pessoas não conseguem olhar a vida de frente e aceitá-la com sereno realismo, quantas vivem o momento presente às arrecuas como quem é empurrado para onde não quer. E quando têm mesmo de enfrentar esse buraco negro e de se interrogar acerca da morte porque algo lhes diz que a destruição total das pessoas que amamos não pode ser, que fazem? Colocam diante desse buraco negro um espelho que lhes dá a ilusão de o além ser a continuação da vida presente. É como se ao morrer passássemos, por magia, para o lado de lá do espelho onde a vida presente continuaria, sem os pesos e sem os constrangimentos deste lado. É desse entendimento light da morte e da ressurreição, hoje tão promovido peia New-Age, que se burlam os saduceus quando apresentam a Jesus a história inverosímil daquela mulher que teve, consecutivamente, sete maridos. Na ressurreição, perguntam, de qual deles será ela esposa?

Condicionados como estamos na vida presente pelo espaço e pelo tempo, toda a nossa linguagem supõe e reflete esses parâmetros. Aqui precisamos de lutar diariamente contra a morte alimentando-nos, descansando, reproduzindo-nos, criando laços que nos sustentem e nos defendam de tudo aquilo que ameaça a nossa vida. Mas a vida dos ressuscitados é de outra ordem, como nos diz Jesus no evangelho de hoje. Há realidades próprias deste mundo que terminam na morte, e há-as que perduram para lá do espaço e do tempo: aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos não se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer pois são como os anjos e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. (Lc. 20,…) Como filhos de Deus libertos da morte e do pecado, os eleitos estão unidos a Cristo, são um só com Cristo mantendo embora a sua identidade, e reinam com Cristo. Com Ele, pelo Espírito Santo, amam o Pai e, com os anjos, contemplam o rosto de Deus e gozam em plenitude a alegria da sua Verdade, Bondade e Beleza. É esta a Vida Eterna que nos foi prometida e que, vigilantes na fé, ousamos esperar.

A fé e a esperança cristãs não são uma droga que nos anestesia, que nos tira da realidade. O acontecimento da morte e da ressurreição de Jesus que é o ponto de partida da nossa fé e da nossa esperança, ilumina toda a nossa realidade e leva-nos a aceitá-la com as suas alegrias e grandezas e também com as suas limitações e sofrimentos. Aceitamos com gratidão a vida e a morte como dons do Senhor, como as duas faces da mesma moeda, pois não há vida sem morte. Toda a espécie de vida neste mundo outra coisa não é senão um diálogo, às vezes violento, entre a morte e a vida. É assim também na vida espiritual.


Ao sermos mergulhados nas águas regeneradoras do Batismo morremos e ressuscitamos sacramentalmente com Cristo para vivermos a sua mesma vida de filho de Deus. Assim, como ensina S. Paulo, nós cristãos levamos sempre, no nosso corpo, o morrer de Jesus para que também a sua vida de ressuscitado se manifeste em nós. (2Cor4,10) Mortos para o pecado e vivos para Deus(Rm 6,11) vivemos como quem perde, melhor, como quem dá a sua própria vida para a encontrar, transfigurada. Vivificados pelo Espírito de Cristo, estando ainda neste mundo mas como cidadãos do Céu, a nossa vida é muito mais que um mero processo biológico que terminará na morte física. Temos Vida Eterna a germinar e a crescer em nós e, como proclamamos na parte final do Credo, esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há-de vir.

 Mania das grandezas? Esperamos o que Jesus nos prometeu, porque Ele no-lo prometeu. Esta é a ditosa esperança, a luz do oitavo dia que orienta e configura a nossa vida neste mundo e ilumina também a nossa morte. Vivemos como quem semeia na vida presente para recolher na vida futura. É por isso que rezamos com a Igreja estas palavras: para os que creem em vós Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma; e, desfeita a morada deste exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna.(Prefácio da missa dos defuntos)

Como aqueles irmãos hebreus martirizados de que nos fala a 1ª leitura, sabemos que o Rei do Universo nos ressuscitará para a vida eterna, temos esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará porque nos criou para O amarmos e servirmos nesta vida e para gozarmos eternamente no paraíso a plena visão do seu rosto glorioso. Sim, viveremos eternamente a sua mesma vida de amor como seus filhos, como eternos recebedores e retribuidores do seu amor. Deus é um Deus de vivos, não de mortos, diz-nos Jesus no Evangelho deste domingo.

Pelas palavras de Jesus sabemos que todos os que vivem e morrem no seu amor estão vivos porque participam da sua vitória sobre a morte. Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos, lemos na 1ª Epístola de S. João (1Jo…) Para nós cristãos, o centro desse buraco negro que é a morte é precisamente o lugar da manifestação de Cristo ressuscitado a cada um de nós, o lugar do óbito, do encontro com Ele, o lugar onde nos assume definitivamente, o lugar do nosso trânsito, da nossa passagem com Cristo deste mundo para o Pai. Como S. Paulo nos ensina também, para quem ama o Senhor, morrer é ir desta para melhor, desta para melhor vida. A esperança da maravilha que será o nosso encontro com Cristo transfigura a nossa existência.

No meio deste mundo que desconhece os novíssimos e toma as coisas penúltimas como últimas, não é fácil mantermo-nos firmes nesta fé e nesta esperança teologais e nelas perseverarmos. São, por isso, preciosas para nós, as repetidas afirmações de S. Paulo na 2ª leitura acerca da fidelidade e do poder do Senhor. A consciência da grandeza do nosso destino manter-nos-á despertos e firmes e fará de nós indicadores e sinais de esperança para quem, desorientado, está neste mundo sem saber de onde vem e para onde vai.

+ J. Marcos

Bispo coadjutor de Beja
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