sexta-feira, 5 de julho de 2013

Encíclica “Lumen fidei"



Fé é património da Igreja

O Papa Francisco assinala na sua primeira encíclica, que publicou hoje, a dimensão eclesial da fé, a qual diz ser mais do que “um facto privado” ou “uma opinião subjectiva”. “A fé não é só uma opção individual que se realiza na interioridade do crente, não é uma relação isolada entre o ‘eu’ do fiel e o ‘Tu’ divino, entre o sujeito autónomo e Deus, mas, por sua natureza, abre-se ao ‘nós’, verifica-se sempre dentro da comunhão da Igreja”, escreve na ‘Lumen Fidei’ (Luz da fé).

Para o Papa, é “impossível” acreditar sozinho, pelo que a fé tem uma forma “necessariamente eclesial”. Francisco pede que os crentes não se envergonhem de Deus ou se recusem a confessar a sua fé na “vida pública”.
“A fé ilumina a vida social: possui uma luz criadora para cada momento novo da história”, observa.


A reflexão iniciada por Bento XVI e concluída por Francisco, que agradece o trabalho do seu predecessor neste texto, sustenta que a “profissão de fé” é mais do que concordar com “um conjunto de verdades abstractas”. “Podemos dizer que, no Credo, o fiel é convidado a entrar no mistério que professa e a deixar-se transformar por aquilo que confessa”, pode ler-se.

Francisco destaca, por outro lado, que no centro da fé bíblica há “o amor de Deus, o seu cuidado concreto por cada pessoa”, que “atinge o clímax na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo”.

A encíclica, documento mais importante assinado por um Papa, cita a obra ‘O Idiota’, do russo Dostoievski (1821-1881) para falar dos “efeitos destruidores da morte no corpo de Cristo”. “É precisamente na contemplação da morte de Jesus que a fé se reforça e recebe uma luz fulgurante, é quando ela se revela como fé no seu amor inabalável por nós”, escreve Francisco.

O Papa argentino passa em revista “quatro elementos que resumem o tesouro de memória que a Igreja transmite”: a confissão de fé, a celebração dos sacramentos, o caminho do decálogo, a oração. “O passado da fé, aquele acto de amor de Jesus que gerou no mundo uma vida nova, chega até nós na memória de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito único de memória que é a Igreja”, realça o texto.

Para Francisco, esta fé em Jesus não separa os cristãos da realidade, mas leva-o “a comprometer se, a viver de modo ainda mais intenso o seu caminho sobre a terra”. A nossa cultura perdeu a noção desta presença concreta de Deus, da sua ação no mundo; pensamos que Deus se encontra só no além”, avisa.

O Papa refere que no Baptismo, o homem recebe “uma doutrina que deve professar e uma forma concreta de vida que requer o envolvimento de toda a sua pessoa”. A este respeito, apresenta-se uma reflexão sobre “o sentido e a importância do Baptismo das crianças”. “A fé é vivida no âmbito da comunidade da Igreja, insere-se num ‘nós’ comum. Assim, a criança pode ser sustentada por outros, pelos seus pais e padrinhos, e pode ser acolhida na fé deles que é a fé da Igreja”, precisa o documento.


Segundo o Papa, é importante que os pais acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos, sobretudo os jovens, que “atravessam uma idade da vida tão complexa”. “Nas Jornadas Mundiais da Juventude, os jovens mostram a alegria da fé, o compromisso de viver uma fé cada vez mais sólida e generosa. Os jovens têm o desejo de uma vida grande”, prossegue.

A encíclica, divida em 60 pontos, conclui-se com uma oração a Maria, “Mãe da Igreja e Mãe da fé”.

Octávio do Carmo
Cidade do Vaticano, 05 Julho 2013

(Ecclesia)

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Emigrar e peregrinar


1. À procura de melhor vida
Devido à crise económica que Portugal e outros países atravessam, muitas pessoas deixam as suas terras e tentam encontrar noutros países aquilo que não encontram perto, trabalho melhor remunerado e condições de vida mais satisfatórias. Nisto reside a principal causa da emigração em massa, de gente nova bem formada e com especialização profissional, mas também de outras pessoas em idade activa, que não se resignam perante o desemprego ou o subemprego. Muitos milhares de portugueses têm emigrado nos últimos tempos, para todas as partes do mundo e não apenas para os países da comunidade europeia. Ao mesmo tempo, muitos imigrantes, que procuraram em Portugal melhores condições de vida, estão a regressar aos seus países de origem ou a emigrar para outros.

Esta convulsão social afecta profundamente o panorama do nosso país, que envelhece rapidamente e diminui a população activa, com reflexos na estabilidade familiar, escolar e também eclesial. Por isso a Igreja em Portugal sente a urgência em acompanhar este fluxo de pessoas, como aconteceu no tempo dos descobrimentos e também há 50 anos, quando se fundou a Obra Católica Portuguesa das Migrações. Para estudar a melhor maneira de acompanhar as famílias e os seus emigrantes estão reunidos em Vila Real, durante esta primeira semana de Julho, os Secretariados diocesanos da Mobilidade Humana com as estruturas da Conferência Episcopal encarregadas deste sector e de 11 a 18 de Agosto vamos celebrar a 41ª Semana Nacional de Migrações, que este ano tem como lema: Peregrinação de fé e de esperança.Terá como ponto alto a Peregrinação do Migrante ao santuário de Fátima, nos dias 12 e 13 de Agosto, presidida pelos bispos da Comissão episcopal e pelo arcebispo do Luxemburgo, onde vive uma numerosa comunidade de língua portuguesa.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Peregrinar é estar aberto à Missão





A nossa diocese de Beja viveu a sua 13ª Peregrinação Diocesana a Fátima. Nem o calor abrasador e sufocante que se fez sentir, foi capaz de demover cerca de duas mil pessoas que se deslocaram ao “altar do mundo” e se associaram aos demais peregrinos da Cova da Iria.
Foi uma jornada muito bela, onde o amarelo, cor do trigo loiro, sobressaía entre as outras cores e a melodia alentejana nos cantares a Maria emprestou um sabor diferente à recitação do Rosário. Com povo, vindo dos grandes centros ou dos longínquos montes ou aldeias, estiveram quase todos os sacerdotes, diáconos, seminaristas e consagrados da Diocese.

Era uma pequena multidão que, no dizer de D. António Vitalino que presidiu à Peregrinação e à Eucaristia, “não é possível reunir em qualquer celebração festiva em território da diocese”. Com objectivos bem definidos, com intenções muito concretas, com mensagem bem marcante, galgaram-se quilómetros para que tudo chegasse ao mais íntimo do coração de cada um.
“Peregrinar é estar aberto à Missão” foi o fio condutor de tudo o que se viu, ouviu, rezou e celebrou.

Vem e segue-me
A liturgia da Palavra convidava-nos a deixar tudo para seguir o Mestre. Um convite, sempre feito, mas nem sempre escutado ou merecedor de uma resposta afirmativa. Esse convite continua a ser repetido e espera respostas generosas de todos, seja para o sacerdócio ou para a vida religiosa, seja para a vida matrimonial. Uns e outros, são chamados a cumprir uma missão, a viver um amor total e dedicado, sempre ao jeito de Jesus Cristo.
Também, em Fátima, há quase um século atrás e também nos dias de hoje, se pode encontrar espaço para uma mudança de vida, de atitude, de resposta.
As palavras do Bispo e as reflexões apresentadas na recitação do terço, na manhã do domingo, uma vez mais, foram apelo e desafio para todos quantos de coração aberto e alma generosa as deixaram entrar nas suas vidas, de modo a dar bons frutos nas suas famílias, nas suas aldeias e montes, nos ambientes onde vivem e trabalham.
“A verdade te libertará”, mote do Sínodo diocesano e bem expressa por S. Paulo, na liturgia do 13º Domingo comum, ensina a desatar muitos nós da vida, a romper com prisões e medos, a criar espaço para uma resposta pronta, total e geradora de felicidade.




“Tudo, todos e sempre em Missão”
Em vários lugares e por diversas vezes se tem repetido esta frase, muito forte, muito densa e cheia de significado. Foi apresentada por Bento XVI numa das últimas mensagens para o dia mundial das Missões. Vai ser retomada para o Dia Missionário Diocesano, em Grândola, a 19 de Outubro. Muitos dos peregrinos de Fátima viveram nos últimos anos experiências de Missão, seja em tempo de férias, com os grupos de jovens, seja nas Missões Populares e nos encontros de formação para animadores, seja mesmo nas tarefas e serviços das suas comunidades e paróquias. Louvado seja Deus por toda essa generosidade, dedicação e testemunho!
Somos capazes de nos mobilizar, de ir longe ou perto, de responder a propostas e a motivações quando elas nos tocam, nos impelem, nos agarram por dentro. Vamos “até ao fim do mundo” se tal nos tocar cá por dentro. O Senhor é o mesmo, a Mãe é a mesma e a Igreja de Jesus Cristo é a mesma.
O que vivemos, celebramos e experimentamos, o que nos encheu o coração, nos tocou fundo ao ponto de fazer correr algumas lágrimas e embargou a voz, sejamos capazes de o testemunhar no dia a dia, sem vergonha nem medos, com alegria e entusiasmo, procurando dizer aos outros, por palavras e por obras, as maravilhas que Deus faz e quer continuar a fazer em nós e através de nós. Peregrinar é estar aberto à Missão e todos somos chamados a dar testemunho do Senhor Jesus, sempre e em todo o lugar.

P. Agostinho Sousa, CDM/Beja